A exposição converge ancestralidade indígena e o saber manual de trabalhadores da construção civil, aborda identidade cultural, cidades, território, enquanto reflete sobre o sistema de arte contemporânea.

A relação entre arquitetura, ancestralidade indígena e trabalho manual estrutura a exposição Alicerces, individual de Andrey Guaianá Zignnatto em cartaz na Janaina Torres Galeria. Com curadoria de Alexandre Araujo Bispo, a mostra reúne um recorte inédito da produção desenvolvida pelo artista ao longo dos últimos dez anos e integra as comemorações da primeira década da galeria paulistana.

A exposição integra as celebrações da primeira década da galeria e tem curadoria assinada por Alexandre Araujo Bispo, que faz um recorte inédito dos últimos 10 anos da produção do artista paulista, de origem indígena – Dofurêm Guaianá e Guarani – e italiana, e que tem obras em coleções como a do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia (Espanha), do PAMM – Pérez Art Museum (EUA) e do Museu de Arte do Rio (MAR).

Andrey Guaianá Zignnatto, Sem título, 2026

Em uma escolha curatorial radical e estruturante, a exposição obedece o caráter dialógico da poética do artista – que confronta temas como identidade cultural, ancestralidade, construção de cidades e territorialidade. Para isso, a mostra toma o espaço bruto da galeria, enquanto realidade construída, sem artifícios cenográficos. A aposta no tradicional cubo branco opera como elemento deflagrador para a primeira conversa: entre o simbolismo arquitetônico do local, enquanto galeria de arte, e obras carregadas de significado construtivo – de sentidos e de materialidades – como o carrinho de mão, os tijolos amassados, as ferramentas de trabalho dos pedreiros, os chassis de quadros amalgamados à cimento, entre outros.

Esta primeira camada da exposição materializa uma característica singular da obra de Andrey: o artista transita entre o concretismo e o neoconcretismo, alterando, por exemplo a densidade,formato de tijolos e cobogós cerâmicos que acabam por parecer ora derretidos, ora maleável, ora leve, flexível, ora seccionados, coordenando forma e conteúdo, aparência e profundidade conceitual. Andrey elege materiais com um simbolismo intrínseco às temáticas que compõem sua pesquisa:  barro, tijolo baiano, vigas de cimento, ferro, urucum, cerâmica, chassis de quadros, jenipapo, tecido, missangas e ferramentas de construção civil, entre outros, compõem a dialogia matérica das obras. A partir deles Zignnatto propõe negociações espaciais, físicas e temporais para a construção coletiva de novos sentidos:

“De um lado estão as forças físicas como gravidade, energia, massa, peso, volume, equilíbrio e, de outro, as forças temporais que incidem no espaço como a memória e o esquecimento, finalmente, as injunções sociais que transformam os “lugares próprios” – um determinado endereço – em “lugares praticados” ou modificados pelas ações dos usuários.” —Alexandre Araujo Bispo

Andrey Guaianá Zignnatto, VEINGRANIÃ – Batismo com Fogo, 2023

A poética de Andrey fricciona diferentes e, por vezes, antagônicas visões de mundo a partir do conjunto de suas próprias vivências pessoais e constitutivas. Entre as experiências seminais do artista está a vivência familiar na construção civil, como servente de pedreiro. Dos 10 aos 14 anos de idade, acompanhou seu avô e aprendeu o ofício que chama de “construção de cidades”. Em outro pólo, está a reaproximação de suas origens indígenas, a exemplo de quando em 2025, junto a seus parentes Dofurêm Guaianá coordenou o projeto Hãive Rumeroro, na zona leste de São Paulo, que irrompeu na reconstrução de uma aldeia Guaianá depois de quase 100 anos da destruição da última do povo dentro da cidade – experiência essa que inspirou Andrey a produzir obras inéditas, que também estarão na exposição.

Andrey Guaianá Zignnatto, Alicerce I, 2026

Entre esculturas, instalações e objetos que aproximam arte contemporânea, design e construção civil, Andrey tensiona o legado construtivo brasileiro ao transformar materiais como cimento, barro, ferro, urucum, madeira e cerâmica em dispositivos de memória e resistência. A exposição ocupa o espaço bruto da galeria sem interferências cenográficas, assumindo o chamado “cubo branco” como parte da discussão proposta pela mostra. Carrinhos de mão, ferramentas de pedreiro, chassis amalgamados ao cimento, tijolos deformados e cobogós aparecem como elementos simbólicos que deslocam objetos utilitários para o campo escultórico.

Andrey Guaianá Zignnatto, Guilhotina (série estudos para uma nova proposta de interpretação do espaço físico ), 2016

Filho da experiência urbana e também da retomada de suas origens indígenas Dofurêm Guaianá e Guarani, Andrey articula em sua produção diferentes camadas de pertencimento cultural. A convivência com o avô na construção civil, ainda na infância, atravessa diretamente sua pesquisa artística. Dos 10 aos 14 anos, o artista trabalhou como servente de pedreiro e aprendeu o que chama de “construção de cidades”, experiência que hoje ressurge em obras que investigam peso, equilíbrio, memória e território.

“Eu aprendi a construir com cimento, e hoje uso esse mesmo conhecimento para outra coisa, levantar o que foi derrubado, seja a memória, território e também o céu.”  —Andrey Guaianá Zignnatto

Ao mesmo tempo, sua produção recente se aproxima das discussões sobre reconstrução identitária indígena em contextos urbanos. Em 2025, o artista coordenou, ao lado de parentes Dofurêm Guaianá, o projeto Hãive Rumeroro, responsável pela reconstrução de uma aldeia Guaianá na zona leste de São Paulo, quase um século após a destruição da última aldeia do povo na capital paulista. Parte dessa experiência reverbera em obras inéditas apresentadas na exposição.

Andrey Guaianá Zignnatto, Bicho Brabo, 2022

Um dos trabalhos centrais da mostra é Bicho Brabo (2022), releitura da obra Bicho, de Lygia Clark. Na versão criada por Andrey, as placas metálicas articuladas da artista neoconcreta são substituídas por uma placa de demarcação territorial indígena da FUNAI dobrada em PVC rígido. O gesto estabelece uma conexão direta entre a história da arte brasileira e as disputas contemporâneas por território e reconhecimento indígena.

Mais do que uma investigação formal, Alicerces transforma a matéria em campo político e simbólico. Ao deslocar técnicas da construção civil para o espaço expositivo, Andrey reposiciona o fazer manual como linguagem estética e ferramenta crítica. Sua obra opera entre ruína e reconstrução, questionando os modos como cidades, identidades e narrativas históricas são erguidas — e apagadas — no Brasil.

Com passagens por instituições como o Museu de Arte do Rio, o Pérez Art Museum Miami e o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Andrey Guaianá Zignnatto consolida uma trajetória em que escultura, território e ancestralidade se tornam formas de reconstrução crítica da experiência brasileira contemporânea.

Andrey Guaianá Zignnatto, Martelo para levantar céus derrubados #3 (série Ferramentas Para Levantar Céus Derrubados), 2026

Serviço: Exposição Alicerces, de Andrey Guaianá Zignnatto, na Janaina Torres Galeria, Rua Vitorino Carmilo, 427, Barra Funda, São Paulo. Em cartaz até 25 de julho de 2026. Entrada gratuita.

Avatar de Philos
Publicado por:Philos

A revista das latinidades